Em 28 de julho de 1938, um marco trágico na história brasileira ocorreu na Grota do Angico, em Sergipe, onde Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião, e Maria Bonita, junto a outros nove membros de seu grupo, foram mortos em uma operação da força volante de Alagoas. Quase 90 anos depois, o local se tornou um ponto de atração turística, recebendo visitantes de todo o Brasil que desejam reviver os últimos passos do rei do cangaço. O percurso começa em Piranhas, no Sertão de Alagoas, onde os turistas atravessam o Rio São Francisco e seguem por uma trilha que os leva ao lugar da emboscada, repleta de pedras e vegetação típica da Caatinga.
O trajeto inicia-se em catamarã, onde guias compartilham histórias sobre a ocupação da região e as antigas canoas de tolda, além de relatos pessoais, como o de Célio Rodrigues, um marinheiro local. Ele lembra que “meus tios, Durval e Pedro, foram torturados pela volante do tenente João Bezerra” e forçados a indicar a localização de Lampião. A narrativa traz um toque de realidade à experiência, ligando os visitantes a uma parte significativa da história.
Após desembarcarem em Canindé de São Francisco, os turistas enfrentam uma caminhada de cerca de 700 metros pela Caatinga. Embora a distância pareça curta, o terreno acidentado apresenta desafios. Ednaide Pimenta, uma das turistas, comentou sobre o esforço: “Essa trilha não é moleza, não. Mas, como sou do Sertão da Bahia, estou meio acostumada”. Para ela, a visita é uma oportunidade essencial de conhecer e entender uma parte crucial da história do Brasil.
Rafael Holanda, outro visitante, também sentiu o esforço, mas expressou sua satisfação: “É uma realização. Eu estudei história nos livros e queria conhecer. Trouxe também o meu neto, que está gostando e amando”. Ao final da trilha, cruzes e uma placa marcam o local onde os 11 cangaceiros foram mortos, simbolizando a memória do cangaço que ainda persiste na região.
A professora e cantora Elvira Rios, que já havia visitado a rota anteriormente, compartilhou sua paixão pelo Sertão e a importância das histórias que ouviu de seus avós: “A história é fascinante. Tem as apresentações culturais e uma animação que parece brotar do rio”. A experiência é completada com um banho nas águas do São Francisco e degustação de comidas típicas, encerrando um dia que revive a memória dos cangaceiros.
O xaxado, uma dança tradicional que originou-se nas primeiras décadas do século XX, também desempenha um papel crucial na preservação da história do cangaço. O som dos calçados arrastando no chão e a coreografia refletem a essência cultural do grupo. Fábio Moura, um guia e produtor cultural que atua como Lampião, destaca sua identificação com o personagem: “Lampião era casado com uma baiana, e eu também sou”. Reconhecido como patrimônio cultural brasileiro desde 2021, o xaxado evoluiu, incluindo maior participação feminina em suas apresentações.
A guia de turismo e fisioterapeuta Zezé Leite enfatiza que as apresentações do xaxado também abordam questões de gênero, mostrando a força das mulheres cangaceiras: “Mostramos a garra da mulher cangaceira de 1938 e também das mulheres dos tempos atuais”. A dança se tornou um espaço de diversidade, com a participação de Maria Eduarda, uma mulher trans que se sente acolhida entre os artistas e o público.
Fonte: G1


